Friday, January 7, 2011

A palavra de ordem mundial é ser como o Brasil


Li na revista da TAM, na ponte-aérea RIO-SP e resolvi postar. Bem legal essa entrevista com o Jorge Mautner. Vale a pena ler.


JORGE MAUTNER

A palavra de ordem mundial é ser como o Brasil

{dezembro de 2010}



Não é de hoje que o filósofo, escritor, cantor e compositor está na trincheira da luta pela cultura brasileira. Integrante da Tropicália nos anos 1970, já defendia que no Brasil aconteceria “a nova coisa” desde o seu livro de estreia – Deus da Chuva e da Morte, publicado em 1962 e vencedor do prêmio Jabuti daquele ano. O carioca conversou com o Almanaque na sua cidade pouco antes de embarcar para o Recife. Lá, o autor da trilogia do Kaos lançaria com o maracatu Estrela de Ouro o álbum Kaosnavial. A parceria teve início nas viagens que fez por todo o País, apresentando pontos de cultura na série Amálgama Brasil, da tevê pública. Depois de tanta estrada, garante, extasiado, que o potencial brasileiro finalmente se concretiza: “Agora nós atingimos o momento. O Brasil é o gigante que se fingia de invisível”. Sua Teoria da Amálgama e dos neurônios saltitantes explicam por que “todo mundo quer ser brasileiro”.

O Movimento Figa Brasil, que você lançou com Gilberto Gil em 1987, buscava a valorização da cultura e da identidade brasileiras. Acha que essa proposta hoje está mais perto de se concretizar? “Que sambem os que só escrevem, que escrevam os que só têm sambado”, dizia o manifesto Um Caráter pra Macunaíma. Na época, o movimento foi suspenso logo, porque Gil elegeu-se vereador em Salvador, mas as ideias continuaram a permear a história do Brasil e, principalmente, os trabalhos meus e de Gil. Quando ele foi ministro da Cultura, conseguiu concretizá-las. Os pontos de cultura, registrados no programa de tevê Amálgama Brasil, que apresentei, são a concretização disso. É uma revolução que não tem fim.

Qual é a inovação dos pontos de cultura? É o seguinte: os mais de 2.500 locais, espalhados por todo o País e até pelo exterior, não foram criados pelo Ministério. São manifestações que já existiam, grupos que já se reuniam, seja em terreiros ou em edifícios, e que foram encampados pelo governo. Como a arte é a alma do Brasil, os pontos explodem em todas as direções: cultura tradicional, contemporânea, teatro, música, dança. Manifestações tão variadas como os Rabequeiros de Natal, no Rio Grande do Norte, o Jongo da Serrinha, em São Paulo, os maracatus de Pernambuco ou o AfroReggae, no Rio de Janeiro. Além de receber dinheiro, os pontos passam a ter ligação cibernética para que se comuniquem entre si. Cada ponto é uma célula irradiante, sem dogmas, e o conjunto forma uma rede neste país-continente. A política também tem vários outros desdobramentos: pontos de leitura, pontões de cultura, trabalhos com antropólogos dentro de sociedades… É o reconhecimento das grandes culturas brasileiras.

Existem projetos semelhantes em outros países? Agora nações da América Latina e da Europa estão tendo encontros com o nosso Ministério da Cultura para se inspirar no modelo daqui. É impressionante como estão interessadas em aderir. O maior problema de alguns lugares da Europa, como Inglaterra, França, Alemanha, é que têm milhões de muçulmanos vivendo em apartheid. Isso aí vai explodir. Tem que ter ponto de cultura, jogar futebol junto, namorar… É uma solução criada aqui, que irradia para o mundo.

Por que a série que você apresentou se chama Amálgama?
O termo foi usado pela primeira vez por José Bonifácio. Em 1823, ele já dizia que, diferente de todas as outras nações, o Brasil era essa amálgama. É um conceito químico para a combinação de metais que cria um novo metal. Exatamente o que aconteceu aqui e que dá ao brasileiro uma capacidade de reinterpretar a cada segundo tudo novamente e, incluindo posições contrárias e opostas, alcançar o caminho do meio, o equilíbrio. Mesmo quando os homens e nações acabarem, vão sobrar os eflúvios poéticos de suas culturas. E a mais forte é a amálgama do Brasil. Desde 1956, no meu livro Deus da Chuva e da Morte, eu já dizia que no Brasil nasceria a “nova coisa”. Somos as terras sem fim, a terra prometida de Vera Cruz. Até os índios tupis-guaranis subiram para cá em busca da terra prometida.
Várias pessoas já sabiam disso – eu e Gil mostramos recentemente na música Outros Viram. Agora, no século 21, tudo isso se torna real, tanto para os brasileiros, quanto para o resto do mundo.

Quem são essas pessoas que já sabiam, citadas na música? Citamos alguns nomes, como o maior poeta dos Estados Unidos, Walt Withman, que no século 19 escreveu que “o vértice da humanidade será o Brasil”. Rabindranath Tagore, um grande filósofo do romantismo indiano, diz que “a civilização superior do amor nascerá no Brasil”. Stefan Zweig era um escritor austríaco que fez um livro, no século 19, chamado Brasil, o País do Futuro. Sem falar em Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, que já invejava a nossa amálgama.

Podemos dizer que outras pessoas continuam “vendo”, então? Claro. Basta lembrar que foi um eflúvio poético nosso – do poeta Vinicius de Moraes –
que fez a mãe do Obama perceber que podia se casar com alguém de outra etnia. Vinicius, o poeta branco mais negro do Brasil, colocou a Grécia ali no morro carioca e, negra, na escola de samba, em Orfeu do Carnaval. Quando a mãe do Obama assistiu ao filme, ficou enlouquecida. Nunca tinha pensado em se casar com homem de outra etnia. Três dias depois, conheceu um filósofo do Quênia em uma conferência em Washington. Eles se casaram e tiveram o Obama. Depois, quando Obama foi entrevistado pela primeira vez na candidatura à presidência norte-americana, perguntou ao jornalista: “Você é de onde?”. “Brasil”. Aí ele disse: “Pois eu também sou brasileiro!”. Depois, quando o Itamaraty foi se apresentar ao candidato, ele disse que era baiano. É isso. Todo mundo quer ser brasileiro.

Por que você diz que o potencial do Brasil torna-se geral no século 21? Agora nós atingimos o momento. O Brasil é o gigante que se fingiu de invisível até então. Cada tribo indígena, cada tribo africana, cada parcela, apesar de estonteante, tinha que se fazer oculta. Agora explodiu a democracia mesmo, pulsante. Desde
Figueiredo, Sarney, mesmo com Collor, até Fernando Henrique, Lula. É o ápice. Não é à toa que as Olimpíadas vão ser aqui, que a Copa do Mundo vai ser aqui. A humanidade precisa do Brasil não apenas para comer, para tomar água, mas para viver no nosso espírito. Para se sentir otimista, para poder ter força e dar a volta por cima. Eu fui a algumas reuniões com a Fifa e vi que a palavra de ordem no mundo é ser como o Brasil.

Isso tem a ver com o que diz uma música sua, que “ou o mundo se brasilifica, ou vira nazista”? Exatamente. É necessário ser essa amálgama para compreender o próximo, para não ter ódios sedimentados, para poder aceitar. Os ministérios de segurança, inclusive, precisam disso para acabar com o terrorismo, transformar os terroristas em partidos políticos que possam entrar na luta democrática. Só o nosso amálgama é capaz de fazer isso. O Brasil é o Cristo ressuscitado, de braços abertos, indo encontrar Maria Madalena em primeiro lugar. Além disso, há uma poesia própria. Acompanhei algumas reuniões do Ministério da Cultura com embaixadores e gestores de países desenvolvidos que se queixavam da falta de motivação de seus jovens. Quando o ministro da Cultura da Ucrânia veio ao carnaval da Bahia, ficou enlouquecido. Queria tentar importar um pouco daquela alegria misteriosa. Aqui é o verdadeiro imaginário do Sermão da Montanha, de Jesus Cristo, com os direitos humanos e os tambores de candomblé.

Mas não é verdade que a nossa história tem também muita incompreensão e genocídio? Ah, sim, claro. Mas qual é o País que, na época do esplendor da eugenia racial, enalteceu os índios? Carlos Gomes logo fez O Guarani. Mesmo nas épocas bravas, de racismo científico, o Brasil enaltecia o seu nativismo. Sabe o que inspirou o Romantismo? Foi uma exposição dos nossos índios, acampados no rio Sena, em Paris, no século 17. O escritor Voltaire foi ver, o pintor Jorge Afonso… A imaginação do selvagem no Romantismo vem de nós. Sem falar que, aqui, até judeus e árabes são sócios. São muitos os casos de conciliação que só aconteceram aqui. Quando os revoltosos da Guerra dos Farrapos estavam chegando ao Rio de Janeiro, Duque de Caxias poderia alcançá-los com artilharia e fazer uma carnificina. Mas chegou com 80 jumentos carregados de ouro, para negociações. No Brasil, por vários séculos, metade dos dias era feriado, para a casa grande descer e assistir à senzala: músicas, danças, capoeira. Aqui não havia como conter os tambores, pajelanças, o candomblé. Havia muita concessão pelo número desproporcional, milhares de negros para cada meia dúzia de portugueses. Uma ternura forçada, um conluio. A concórdia sempre foi feita pela poesia, pela música, pelo batuque.

Você não costuma ouvir que é muito otimista?
Sempre tem os que falam: “Ele exagera, é poeta…”. Teve sempre a linha contrária, representando a voz colonizada, colonizante, colonizadora, colonial. Uns que querem ser ingleses etc. Mas esses lobismos não têm mais força. Tudo também porque nossa amálgama foi misteriosamente oculta. Quem era colonizado, muito mais inteligente do que os colonizadores, tinha espécies de truques, se fazendo de bobo, para enganar. São muitas manobras, como a capoeira, que se diz dança, e é um pontapé na bunda. Os pontos de jongo, por exemplo, xingam o branco e ele nem percebe. São segredos sussurrados. Tem ambiguidades e ocultações o tempo todo.

A cultura popular – jongo, maracatu, coco – acaba se sintetizando na cultura contemporânea, como ficou evidente no Tropicalismo, por exemplo. A cultura de raiz não está fadada a acabar? Pelo contrário. Os brincantes agora é que têm espaço para se agigantar. São artes eternas, marcas da emoção, da paixão, originais. É verdade que as culturas vão se transformando, mas não acabam. Por exemplo: estava com Nelson Jacobina assistindo ao maracatu Estrela de Ouro, em Pernambuco, com quem gravei um trabalho agora, o Kaosnavial. O Jacobina reparou que um trompetista fez uma levada de uma música de jazz. Foi perguntar se o músico sabia da semelhança, e ele realmente tinha usado a referência de fora. Hoje em dia, a garotada acopla novas coisas. O amor pelo Brasil é total e a certeza de que eles é que estão com a nota dominante é absoluta. Então incluem coisas novas a serviço da cultura tradicional, ao contrário do que se fazia antigamente, deformando aquilo. Isso é um fenômeno de toda a juventude brasileira, que, graças aos neurônios saltitantes, tem informação de tudo e noções de incorporação.

O que são esses neurônios saltitantes? Eu chamo assim os neurônios capazes de saltar quando um novo fenômeno acontece. Eles reconfiguram a imagem formada no cérebro, agregando um elemento novo. Isso faz a amálgama e acontece o tempo todo no Brasil. Os exemplos são inúmeros. Na umbanda em São Paulo, como a imigração japonesa é muito forte, já inventaram um orixá que é samurai. Dom Pedro 2° já virou personagem de maracatu. Na Amazônia, conheci uma comunidade que vive em três religiões diferentes: tem umbanda, uma religião que imita rituais indígenas e uma terceira, que você vê pegando uma trilha no meio da floresta, até chegar a um casarão enorme, antiquíssimo, onde há missa cantada num latim reinventado por eles, com palavras indígenas no meio. Tudo cantado em som dissonante, atonal, como se fosse uma banda de pífano. Você anda 40 quilômetros e a outra cidade já tem mais outras coisas originais. É um exagero de criatividade para qualquer parâmetro europeu, ou chinês, ou japonês.

Natália Pesciotta


source: almanaquebrasil

10 comments:

  1. "A humanidade precisa do Brasil não apenas para comer, para tomar água, mas para viver no nosso espírito. Para se sentir otimista, para poder ter força e dar a volta por cima. Eu fui a algumas reuniões com a Fifa e vi que a palavra de ordem no mundo é ser como o Brasil."

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  2. Palavras of BLA ! BLA! BLA!

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  3. Brasil is Brasil l !!! no more and that all : (

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  4. Só não gosta de um texto legal como esse quem não abre mão do seu status de vira-lata.

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  5. Concordo com o Anonymous de cima. O Brasil é MA-RA-VI-LHO-SO.

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  6. Grande Mautner, nesta entrevista -uma exata semana antes de cumprir 7 décadas - praticando seu verso em Salto no Escuro: "Tem um jato de luz saindo do meu crânio para o seu crânio..." - gracias pelo post !

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